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FRACASSO 4.0

há 24 horas
3 min de leitura

Eu fico impressionado com a capacidade que algumas instituições têm de modernizar tudo, menos a maneira de enxergar os problemas.


Agora temos Justiça 4.0, inteligência artificial, processos eletrônicos e uma infinidade de ferramentas tecnológicas. Só falta combinar com a realidade do cidadão que não tem dinheiro nem para pagar o advogado, muito menos para entender onde deve clicar.


Não sou contra a tecnologia. Pelo contrário, adoro quando ela facilita a vida das pessoas. Meu problema começa quando inventam uma solução moderna para continuar ignorando os problemas antigos.


Pelo jeito, a Justiça quer entrar no futuro. Só não sei se pretende levar os pobres junto!


Tenho a impressão de que esses grandes projetos são pensados por pessoas que olham muito para os sistemas e pouco para quem realmente faz a Justiça acontecer. Tudo é planejado de cima para baixo, com apresentações bonitas, discursos sobre eficiência e gráficos que devem deixar qualquer gestor emocionado.


Mas eu gostaria de fazer uma pergunta simples: quem foi ouvir o cidadão que precisa da Justiça, o advogado que enfrenta as dificuldades do sistema e o servidor que conhece a realidade dos processos?


Porque, sinceramente, tenho dúvidas se quem criou algumas dessas soluções já precisou utilizá-las na vida real.


A Justiça 4.0 promete modernidade, mas eu queria saber se ela também promete humanidade. Porque, se a intenção é apenas controlar melhor os processos, organizar as demandas e produzir estatísticas mais bonitas, parabéns! Estamos modernizando a burocracia.


O problema é que processo não é pacote de entrega, cidadão não é número de protocolo e Justiça não deveria funcionar como uma fábrica de sentenças.


E tem uma coisa que me chama a atenção: a relação da Justiça com a gratuidade processual.


Quando alguém tem dinheiro, contrata advogado, paga custas e segue em frente. Quando não tem, começa uma verdadeira maratona para demonstrar que realmente não tem condições de pagar.


Eu entendo que fraudes precisam ser combatidas. Mas, às vezes, fico pensando: será que o cidadão precisa provar tantas vezes que é pobre porque a Justiça ainda não acredita nele?


Parece que, além de pobre, o sujeito precisa ter doutorado em burocracia para conseguir defender os próprios direitos!


A Constituição garante o acesso à Justiça, mas, na prática, a porta pode parecer muito maior para quem tem dinheiro e muito mais estreita para quem não tem.


E agora querem resolver tudo com tecnologia?


Imagino o cidadão sem dinheiro, sem conhecimento técnico e com dificuldade para utilizar uma plataforma digital recebendo a notícia de que o sistema ficou mais moderno. Deve ser uma alegria extraordinária!


A porta ficou digital, mas será que ficou mais fácil entrar?


O que me preocupa é essa mania de confundir eficiência com justiça. Um sistema pode julgar milhares de processos e continuar falhando com quem mais precisa dele. Pode reduzir custos administrativos e aumentar as dificuldades de acesso. Pode ser tecnologicamente avançado e socialmente atrasado.


Por isso, eu não me impressiono apenas com nomes modernos. Quero saber quem se beneficia dessas mudanças e quem acaba ficando para trás.


Quero saber se ouviram os advogados, os servidores e, principalmente, as pessoas que dependem da Justiça para resolver problemas que afetam a própria sobrevivência.


Porque, se o projeto é feito de cima para baixo, sem conhecer a realidade de quem está na ponta, corremos o risco de construir uma Justiça excelente para quem administra e complicada para quem precisa.


E é por isso que chamo essa reflexão de Fracasso 4.0.


Não porque sou contra a tecnologia, mas porque me recuso a acreditar que digitalizar um problema seja o mesmo que resolvê-lo.


No fim das contas, podemos ter inteligência artificial, sistemas sofisticados e processos inteiramente digitais. Mas, se o cidadão pobre continuar encontrando dificuldades para defender seus direitos, teremos modernizado os computadores sem modernizar a consciência da instituição.


A Justiça pode até estar na versão 4.0. Só espero que o ser humano não continue na versão esquecida.


Imagem criada por IA.
Imagem criada por IA.

 
 
 

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