O Banquete de Erisícton: Quando a fome devora a si mesma
Na mitologia grega, Erisícton foi o rei que ousou violar o bosque sagrado de Deméter. Tomado pela arrogância, empunhou seu machado contra árvores imemoriais, ignorando súplicas e presságios. Como castigo, a deusa infligiu-lhe fome insaciável, assim, quanto mais devorava, mais vazia sua alma se tornava, até que, num estertor de loucura, passou a consumir o próprio corpo.
A Polícia Federal, ao batizar de "Erisícton" a operação deflagrada nesta terça-feira na Terra Indígena Roosevelt, talvez não tenha percebido a trágica ironia do nome que escolheu. Pois, assim como o rei da Tessália, o Estado brasileiro também tem devorado a si mesmo, e é óbvio que não é por falta de alimentos, mas por um apetite insaciável por espetáculo.
O machado e a coreografia
Cento e oito servidores federais. Vinte e três mandados de busca e apreensão. Uma madeireira lacrada. Celulares, armas, veículos apreendidos. Os números são impressionantes, e cuidadosamente calculados para impressionar. A coreografia foi impecável: agentes em campo, câmeras estrategicamente posicionadas, o balé da repressão em tempo real para os noticiários.
Mas o que realmente muda na floresta?
A operação não combate o desmatamento em si, mas a extração ilegal de madeiras, uma distinção fundamental que se perde no calor das manchetes. Enquanto os agentes retornam às capitais para analisar o material apreendido, os madeireiros ilegais ajustam suas rotas, aprendem novas táticas, contratam novos "batedores". O ciclo recomeça, como a hidra de Lerna, para cada cabeça cortada, duas nascem em seu lugar.
Os números mágicos
Quarenta e um milhões, novecentos e trinta e seis mil, seiscentos e oitenta e um reais e vinte e nove centavos.
Há uma precisão quase poética nesse número. Centavos incluídos, como se fosse possível quantificar com exatidão o valor de uma floresta em pé, o silêncio de espécies extintas, o conhecimento ancestral perdido quando mais uma árvore sagrada tomba.
Sabemos, por experiência, que desses R$ 41 milhões, dificilmente 10% (dez por cento) se concretizará em reparação, e talvez seja esse o valor real do dano, pois a verdade, não se sabe. Os bens apreendidos se perderão em depósitos judiciais, as madeiras apodrecerão aguardando perícia, os processos prescreverão antes da sentença final. E quando o pó baixar, o dano real, ecológico, social, humano continuará ali, como o carvalho de Deméter, sangrando silenciosamente.
A presunção de inocência degolada
No mito, quando um criado tentou dissuadir Erisícton de seu intento sacrílego, teve a cabeça cortada em um único golpe. Algo semelhante acontece hoje com a presunção de inocência, pois o princípio constitucional decapitado pela lógica do espetáculo punitivo.
Antes mesmo do devido processo legal, os envolvidos já tiveram suas imagens associadas ao crime organizado, seus nomes vinculados à extração ilegal, suas vidas expostas como troféus em uma caçada midiática. As câmeras chegaram antes da defesa. As manchetes condenaram antes das provas. E quando o processo finalmente transitar em julgado, se é que transitará, a absolvição, quando ocorre, chega sempre tarde demais, num canto esquecido do Diário Oficial.
O direito ao contraditório? A ampla defesa? Meros galhos partidos diante do machado da opinião pública.
Onde está Deméter?
Mas talvez a ironia mais profunda do nome "Erisícton" esteja no que falta na operação. Na mitologia, a deusa ofendida não apenas puniu o agressor, ela também oferecia alternativas. Deméter era a deusa da agricultura, da fertilidade, da abundância que poderia ser colhida sem destruir a floresta. Seu culto ensinava que era possível alimentar-se respeitando o sagrado.
Onde está essa Deméter na política para a Amazônia?
A extração de madeiras, quando feita de forma legal e planejada, não precisa significar destruição. Países com florestas temperadas e tropicais demonstram há décadas que é possível conciliar o manejo sustentável com a preservação ambiental, extraindo recursos sem devastar ecossistemas, mantendo a floresta em pé e produtiva. O manejo florestal sustentável permite colher árvores selecionadas, em ciclos controlados, garantindo a regeneração natural e a perenidade da floresta.
Onde estão as políticas públicas que poderiam levar esse conhecimento às terras indígenas? Onde estão os programas de manejo sustentável que transformariam as comunidades indígenas em guardiãs economicamente fortalecidas de seus próprios territórios? Onde estão as alternativas que tornariam a extração ilegal uma opção irracional, e não a única via possível para gerações que precisam sobreviver dentro de terras que a lei protege, mas o estado abandona?
Não há Deméter nas operações da Polícia Federal. Há apenas Erisícton, o Estado que devora a si mesmo num ciclo interminável de repressão sem prevenção, de punição sem alternativa, de espetáculo sem substância.
A fome que consome
Como o rei da Tessália, o modelo atual de combate aos crimes ambientais padece de uma fome insaciável, por recursos, por manchetes, por números que justifiquem o orçamento consumido. Quanto mais operações são realizadas, mais cresce o apetite por novas operações. Quanto mais madeira ilegal é apreendida, mais madeira é extraída pelas mesmas rotas clandestinas. Quanto mais punições são anunciadas, mais o crime se reorganiza.
E no fim, como Erisícton, terminamos devorando a nós mesmos, nossas florestas, nossa credibilidade institucional, nossa capacidade de enxergar soluções para além do binômio "prender ou ser preso".
Enquanto isso, na Terra Indígena Roosevelt, as dríades continuam esperando. Não por uma deusa vingadora, mas por um Estado que finalmente compreenda que proteger a floresta exige mais do que machados, exige plantar, cultivar, nutrir. Exige políticas públicas que ensinem a colher sem destruir, a extrair sem esgotar, a viver da floresta. Exige, acima de tudo, enxergar os povos indígenas não como suspeitos ou cúmplices a serem vigiados, mas como parceiros essenciais na construção de um modelo em que a madeira legal e sustentável seja fonte de renda e dignidade, e não de destruição e crime.
Até lá, seremos todos Erisícton, condenados a uma fome que nada sacia, assistindo impassíveis enquanto devoramos o que deveríamos proteger, sem nunca aprender que a floresta pode alimentar sem precisar morrer.




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