Fábula: A Alfaiataria da Praça dos Três Poderes
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Era uma vez, num reino tropical chamado Terra Brasilis, um Conselho de Onze Sábios que vivia em um palácio de vidro tão transparente quanto as suas intenções. No entanto, o custo para manter a transparência daquele vidro era mais caro do que o cristal de quartzo.
Um dia, o povo, que andava meio maltrapilho e com a saúde debilitada, começou a olhar para as contas do Palácio. Os Onze Sábios, percebendo o burburinho, contrataram os melhores "Alfaiates Orçamentários" do reino. Estes especialistas trouxeram uma seda invisível chamada "Austeridade Relativa".
— Vejam! — exclamavam os Alfaiates, balançando as mãos no ar vazio. — Criamos para os Sábios um orçamento feito de fios de "Eficiência Digital" e botões de "Segurança Cibernética contra Ataques Externos". É uma roupa tão moderna que só pode ser vista por quem entende de "Série Histórica desde 2009" e "Cálculos Atuariais Complexos". Quem não enxerga a economia de 6 bilhões de reais é simplesmente tolo ou inepto para a vida pública!
Os ministros, então, vestiram a tal roupa. Olharam-se no espelho da Lei de Responsabilidade Fiscal e, embora só vissem as próprias cuecas de seda importada, comentaram: — Que caimento esplêndido! Notem como a redução do acervo de processos combina com o meu novo sistema de segurança de custo estratosférico!
Para celebrar, organizaram uma procissão orçamentária. O Palácio anunciou: "Gastamos quase 1 bilhão, mas, vejam bem, se estivéssemos em 2009 gastaríamos mais! Portanto, estamos praticamente dando lucro!"
O Reino Unido enviou um mensageiro. O sujeito, um lorde magricela que cuidava de uma tal de Família Real e de uma Suprema Corte Britânica, ficou boquiaberto. — Ora — disse o inglês — nós mantemos castelos, guardas de chapéu de pele de urso e um império de influência global com 39% a menos do que vocês gastam com 11 pessoas. Nossa Suprema Corte custa dez vezes menos!
Mas os Alfaiates de Terra Brasilis logo o silenciaram: — Silêncio, bárbaro! Você não entende a "complexidade das nossas funções"! Nossas togas são feitas de uma tecnologia que protege contra a "hostilidade das massas". Se custa 1,6% do PIB, é porque a nossa democracia é muito pesada para ser carregada com roupas baratas!
O povo assistia ao desfile. Todos fingiam ver as "Roupas de Austeridade". Um cidadão dizia ao outro: "É... dizem que comparado a 2009, eles estão quase passando fome, coitados...". Outro completava: "Se o índice de produtividade subiu, o bilhão de reais deve ser ilusão de ótica".
Até que uma criança, sentada na porta de um hospital público onde faltava gaze e esparadrapo, apontou o dedo e soltou uma gargalhada:
— Mas o Supremo está nu!
A multidão gelou. A criança continuou: — Eles dizem que economizaram, mas o bolso do meu pai continua vazio! Eles dizem que são eficientes, mas custam dez Reis britânicos! Eles se vestiram de argumentos técnicos, mas eu estou vendo daqui: são apenas 11 senhores de bengala e capa, gastando como imperadores enquanto o resto do reino anda descalço!
Os Alfaiates Orçamentários tentaram explicar que a criança não tinha "notório saber jurídico" para entender a invisibilidade do gasto, mas o riso já tinha se espalhado.
A moralidade da história? Não importa o quão luxuoso seja o nome que você dê ao tecido: se o custo da roupa impede o povo de comer, a única coisa que brilha no desfile é a audácia de quem a veste.




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