Isso não é uma carta!
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A política atual vive de miragens. Vestem-se de laranja e acenam com obras faraônicas, enquanto a estrutura básica que sustenta a vida desmorona em silêncio. Não está tudo bem. Não estamos melhorando. Estamos parados no atoleiro da inércia, enquanto vendem para a população a ilusão de ótica de que o trem anda.
O retrato dessa falência sistêmica está nas "vaquinhas virtuais". O que deveria ser um ato de solidariedade pontual virou política de saúde pública terceirizada. É uma triste ironia ver um cidadão comum pedindo moedas para tratar uma doença que os seus impostos já deveriam cobrir.
O mais grave, porém, é ver agentes políticos compartilhando essas campanhas. Ao invés de usar a máquina pública para resolver a falta de um medicamento ou de uma cirurgia, o político usa o problema como combustível para engajamento pessoal.
Transformar a miséria alheia em conteúdo de rede social e/ou engajamento eleitoral não é solidariedade; é a espetacularização do atraso social. É a admissão pública de que o Estado faliu e o cidadão que se vire.
Enquanto isso, o dinheiro público, gerido com a visão de curto prazo de quem só pensa no próximo pleito, é drenado para superfaturamentos e contratos emergenciais que nunca resolvem o problema de fundo. Não há dinheiro? Há, sim. Mas falta vontade e sobra incompetência para aplicar.
E quando há dinheiro, cadê? Perdoam-se bilhões em dívidas de grandes empresas, renegociam-se tributos nos bastidores do poder, enquanto o cidadão comum tem o nome sujo por duzentos reais de luz. É a lógica do toma-lá-dá-cá elevada à enésima potência: o Estado falido para o povo, mas generoso para quem já tem.
Eu não sento à mesa com vocês. Nunca sentei. Mas o que me assombra é ver tanta gente sentando a mesa. Gente que deveria estar do lado de cá, do lado da fila do SUS, do lado da conta que não fecha no fim do mês, sentada à mesma mesa dos que perdoam bilhões, talvez para receber migalhas. É aí que a tragédia vira farsa.
Olhamos para as cidades e vemos o caos urbanístico se repetindo como um vírus. Os problemas superam as poucas soluções. Multiplicam-se bairros periféricos lançados a esmo, empurrando famílias para margens de córregos, de lixões, que, amanhã, virarão manchete de tragédia.
As nascentes, que deveriam ser fontes de vida, são dutos de esgoto a céu aberto. O básico, como o saneamento, é tratado como se fosse uma equação de física quântica. Na cabeça de muitos gestores, parece impossível, porque saneamento não dá voto imediato; não se corta uma fita inaugural em cima de um cano enterrado.
Isso não é pessimismo, é realismo. A mudança não vem de outro lugar senão daqueles que, próximos aos problemas sociais, buscam as soluções.
A urbanização ou o desenvolvimento urbano exige decisões rápidas e sustentáveis, mas o poder público age com a lentidão de quem não tem pressa, porque a pressa é do povo que sofre. É nojento perceber que o Brasil privado é extraordinário: o empreendedor, o trabalhador, o profissional autônomo se viram nos trinta para inovar e sobreviver. Mas quando a chave vira para o lado público, tudo emperra. O povo vira refém de uma máquina pública pesada, corrupta e ineficiente no coletivo.
Talvez a raiz disso seja mais profunda do que imaginamos. Carregamos uma herança da colonização, um sentimento de não pertencimento. Durante séculos, esta terra foi vista como um lugar a ser explorado, sugado e descartado. Ainda agimos como se a cidade fosse um abrigo temporário ou uma mina a ser escavada, não a casa que vamos habitar e legar aos nossos filhos. Demoramos a entender que aqui é o nosso lugar. Cuidar do córrego, da praça, da árvore, do asfalto e do hospital é cuidar da nossa própria existência.
Qual a solução para o futuro? Não há fórmula mágica, mas há caminhos.
O primeiro passo é furar essa bolha de ilusão. É preciso exigir que os políticos passem a governar com políticas estruturais. A exemplo disso, se eu pudesse escolher, trocaria a construção de uma prefeitura ou de uma rodoviária por saneamento básico, asfaltamento, regularização fundiária, postos de saúde no bairro mais humilde. É preciso cobrar planos diretores que incluam arborização e saneamento com a mesma paixão com que se discute shows e eventos. E, principalmente, precisamos nos enxergar como parte da cidade, e não como meros inquilinos de passagem.
Enquanto tratarmos o espaço público como "terra de ninguém" e a gestão pública como um negócio privado de alguns, continuaremos a ver, impotentes, o povo sofrendo enquanto os que deveriam buscar soluções apenas compartilham a dor nas redes sociais. É um atraso. É uma vergonha. E a conta, como sempre, chega no bolso e na saúde de quem mais precisa.
É a prova cabal de que acertamos o nervo exposto da realidade. É quando o sujeito que se sente atingido por um texto genérico sobre a falência da gestão pública não está incomodado com as palavras, mas com o espelho que elas inadvertidamente colocaram à sua frente. Ele não vê a crítica ao sistema; ele vê o autorretrato da própria omissão, da conivência silenciosa ou do erro ativo. O incômodo é a assinatura da culpa.
Mas não contentes em fracassar na gestão das cidades, da saúde e do meio ambiente, conseguimos também fracassar na nossa capacidade de pensar e de comunicar. Matamos a crítica. E, pior, enterramos o corpo do jornalismo sem alarde, para que ninguém investigue a causa da morte. O que deveria ser o farol da sociedade virou um letreiro de néon piscando na direção do maior pagador.
A informação deixou de ser um direito para se tornar um produto de prateleira, com validade e viés definidos em reuniões de pauta onde a primeira pergunta não é "isso é relevante?", mas sim "isso agrada a quem?". O jornalismo vendido e ideológico não é a exceção cínica; é a regra que se naturalizou. Publica-se a crise, mas nunca a causa. Mostra-se a enchente, mas esconde-se o nome de quem liberou a construção na várzea. Denuncia-se o sintoma, mas absolve-se o sistema que o produz. Perdemos a independência.
E no fim, depois de tanta análise, de tanta palavra, de tanta constatação do óbvio, só me resta o amargo na boca e a certeza na voz. Isso não é um artigo. Isso não é uma carta.
Isso é um desabafo.
Mas eu não desisto. E o Brasil tem pressa.




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